Áudio de um gravador encontrado na cena do crime pela polícia no dia 04/11/2006.
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– Assim que cheguei à casa pude ver o quanto eu tinha perdido e ganhado em apenas um dia. As fotos dela fulguravam na parede da casa e o seu cheiro, impregnado na cama, ainda me incomodava. O meu melhor simplesmente não foi o suficiente para que ela pudesse escolher ficar comigo. Não sou culpado. Não sou inocente. Não sei o que sou. O que sei é que o que eu acabei de fazer vai mudar a minha vida. Vai mudar a vida dela e vai mudar a vida de muitos outros.
“O gravador continua ligado. E vou tomar um banho. Quero lavar a impureza do meu segredo mais ultrajante e me preparar assim para acertar os erros dela, que me fizeram tomar a decisão mais acertada de minha insignificante vida.”
“A musica que eu quero escolher para esse momento tem que ser especial. E eu vou de Radiohead, Creep. Sinto-me totalmente rastejante. Não consegui no tempo de uma vida inteira fazer parte de nenhum grupo. Todos sempre me acharam estranho “
“Essa é a minha vida do jeito mais cruel que eu consigo explicar para quem quer que esteja ouvindo essa fita.”
“Fui assim durante a maior parte de minha existência. Até que um dia eu a conheci. Eu entrava mais um dia no Revolution Bar no centro da cidade. Era como um ritual para mim. Minha vida era regrada. Nunca precisei de dinheiro, portanto, escrevia alguma coisa durante o dia, almoçava sozinho, voltava para casa e lia qualquer coisa que me chamasse atenção. De noite eu descia até o Revolution, sentava-me no balcão, e bebia e fumava até a cabeça doer. Assim foi durante pelo menos dois anos até que um dia ela veio sentar-se ao meu lado. Lembro do seu cabelo loiro balançando por sobre os ombros largos. De alguma forma desconexa e não planejada ela me achou charmoso e interessante. Nunca fui o tipo conversador e nem conquistador, por isso fiquei muito inseguro, ainda assim, contente diante daquela situação.”
“Tudo o que sei é que após dois meses minha vida estava de cabeça para baixo. Ela me visitava todos os dias. Não existia mais uma rotina certa. Ela sempre tinha uma surpresa para mim. O sexo que fazíamos é indescritível. Louco, violento, sangrento e extremamente prazeroso. Sempre com um algo a mais para apimentar nosso conturbado relacionamento.”
“Ela simplesmente adorava tudo o que eu escrevia e sempre me dizia que eu era um mistério a ser descoberto. Eu, na minha inocência, acreditei em cada palavra dita no meu ouvido. Assim, eu percebi que eu não vivia mais a minha vida. Vivia qualquer coisa que fosse relacionado a ela. A senhora da minha amargura. A deusa do meu sofrimento. A salvadora do meu martírio.”
“Em pouco tempo, já não queria mais me afastar dela. A possessão assim começou. Ela começou a passar tempos longe de mim. Eu não tinha como falar com ela. Eu nunca soube, até hoje, onde ela morava. A única maneira de falar com ela era pelo celular, que por vezes encontrava-se desligado.”
“Eu não conseguia aguentar a insegurança que crescia perigosamente dentro do meu coração. Para poder aliviar, a única coisa que afastava minha cabeça doentia do pensamento dela longe de mim era a autoflagelação. Qualquer coisa servia na minha busca de calma. Murros na parede, pedaços de vidro apertados na palma da mão, cabeçadas no chão e muitas outras coisas que me ajudavam aliviar a pressão do momento.”
“Minhas atitudes afastaram-na de mim. Eu sei e aceito isso. Mesmo assim eu apenas sei que ela não existe sem mim. E eu não consigo existir sem ela.”
“Ela sempre teve a mania de remediar os nossos problemas com o sexo brutal, como forma de punição. Eu aprendi a gostar da dor e aprendi a gostar de infligir dor. Ela sempre aparentou gostar de minha força e dos meus modos. Principalmente na cama.”
“Mas nos últimos tempos eu percebi que o quadro mudara. Ela sentia medo de mim. E esse medo dela me fortalecia. Eu gostava de vê-la gritar de dor. Lembro de um dia em que ela até desmaiou. E quando acordou foi embora correndo. Eu a deixei ir porque ela sempre voltava. E de alguma maneira maluca ela sempre nos levava de volta ao sadomasoquismo.”
“Hoje de manhã ela partiu. Saindo me disse que nunca mais ia me procurar. Ela estava linda. A cabeleira loira desgrenhada jogada por cima dos olhos, roxos das pancadas, e manca devido a força especial que dediquei a ela durante o nosso ultimo ato. Eu sei que ela gostou. Ela não reclamou e nem chorou. Eu senti ela gozar múltiplas vezes. Por isso não entendi o que ela queria dizer quando falou que eu não a veria de novo.”
“Levantei-me e a segui. Vi que ela entrara num ônibus que seguia para a zona sul. Para minha sorte um taxi estava logo atrás do coletivo. Entrei no taxi e pedi para seguir o ônibus. Depois de quinze minutos ela desceu. Ela andou por volta de 400m e chegou a sua casa. Desci do taxi e esperei que ela entrasse. Passei a tarde inteira sentado em um bar que ficava próximo ao lugar onde ela entrara. Queria ter certeza de que ela não esperava ninguém. Ninguém chegou. Portanto eu sabia que ela não tinha me trocado por ninguém.”
“A casa era humilde. Térrea. Aparentemente com apenas um dormitório. Levantei da minha mesa no bar e fui até a janela da casa dela. Parecia vazia. Mas eu sabia que ela se encontrava dentro do aposento. Não existia saída pelos fundos e ela definitivamente não saíra pela porta da frente.”
“Acho que esse banho já demorou demais. Vou sair e me enxugar para poder ver melhor tudo o que eu fiz desde que entrei nessa casa. Ela está me esperando quieta na cama. Ela não vai reclamar de nada. Nossa conversa foi muito esclarecedora e acho q finalmente ela consegue entender o meu ponto de vista.”
“Estou entrando no quarto onde ela está descansando. Provavelmente cansada de tudo o que passamos juntos nessa noite tão bonita. Ela já não grita mais. Está calma, serena. Ela esta deitada de bruços. Só de olhar o seu corpo nu eu fico excitado. Com vontade de fazer mais amor com ela. Amor do nosso jeito peculiar.”
“Você está pronta, baby?”
“Não quer responder?”
“Tudo bem. Sempre ouvi um velho ditado que diz: Quem cala, consente.”
“Você não se importa de eu gravar em áudio o nosso pequeno segredo?”
“Tudo bem. Ajeite-se melhor.”
“Isso. Eu gosto quando você fica calada. Consegue sentir eu entrando em você com força?”
“Responda!”
“Ok. Você está pedindo por isso.”
“Consegue ver essa faca?”
“Não? Então sinta.”
“Urhg”
“Sinta eu perfurando suas costas. Eu sei que você gosta de sentir dor enquanto eu te penetro com força.”
“Agora vem aqui. Deixe-me virar você de frente.”
“Eu não acredito que você não agüentou! Você está morta!”
“Não tem problema. Eu quero continuar o que estou fazendo. Eu sei que você não estava fingindo antes.”
“É uma pena que o seu rosto tão bonito está, agora, tão desfigurado. Mesmo assim você continua linda aos meus olhos. Você ainda me excita.”
“Levanta essa perna. Deixe-me mudar de posição!”
“Isso, baby. Eu não vou parar. Eu sei que você está gostando.”
“Eu vou gozar. Isso. Isso!”
“Ahhhh”
“Eu sabia que você ia conseguir. Vem aqui. Deixa eu te dar um ultimo beijo.”
“Agora que eu já me diverti eu vou embora. Acho que vou precisar de outro banho. Espero que você também tenha se divertido. Essa gravação vai ser muito interessante de ouvir depois. Deixa eu te dar outro beijo antes do banho.”
“Você vai ser o meu segredo mais prazeroso. Agora e sempre. É uma pena que você nunca me dissera o seu nome verdadeiro. Tudo o que eu quero é agradecer por me ajudar a encontrar o meu verdadeiro eu. De agora em diante eu vou fazer isso com muito mais freqüência. O meu nome é...”